Segunda-feira, Novembro 09, 2009

Reserva Naval - 18.º CFORN

18º CFORN - Curso de Formação de Oficiais da Reserva Naval




No decorrer do ano de 1971, em 9 de Junho, é efectuado o primeiro ataque do PAIGC a Bissau. Em Julho, inicia-se a publicação da Revista da Armada destinada essencialmente à divulgação interna das actividades da Marinha e que se tornou numa fonte documental indispensável para o conhecimento institucional da Armada.

Durante esse ano, a FF “Nuno Tristão”, o navio-patrulha “Santo Antão”, o caça-minas “Santa Maria” e a LFP “Tete” foram abatidos ao efectivo dos navios da Armada. Em 1972 as FF’s “Álvares Cabral” e “D. Francisco de Almeida” bem como as LFP’s “Canopus” e “Deneb”, deixaram igualmente de pertencer ao efectivo dos navios da Armada. Ainda no ano de 1973 o mesmo destino teve a corveta “Cacheu”, o DM “Pico” e a FF “Vasco da Gama”.

Entretanto, foram aumentadas ao efectivo novas unidades como os navios-patrulha “Zaire” (1971) “Zambeze”, “Limpopo” e “Save” (1973), as corvetas “Honório Barreto” e “António Enes” (1971), o NA “Schultz Xavier” (1972), entre outros, pelo que se mantinham perspectivas de grande parte dos oficiais do 18º CFORN virem a ser designados para prestar serviço no Ultramar.



A FF "Pero Escobar", mais conhecida pela "Gina".

Iniciado aquele curso em 18 de Fevereiro de 1971, foi frequentado por 57 cadetes e concluiu-se a 13 de Outubro daquele ano, tendo a ele pertencido também o STEN FZ RN António Bernardino Apolónio Piteira, vítima de uma mortal e mal esclarecida emboscada, em Angola.



Em baixo à direita, recortado da listagem, o pormenor da referência ao STEN FZ RN António Bernardino Apolónio Piteira, no Memorial de Belém aos Combatentes do Ultramar.

Após o juramento de bandeira foram designados para prestar serviço em África os seguintes oficiais:

Guiné:
Asp RN Fernando Tabanez Ribeiro na LFG “Lira”, Asp RN Eduardo Germano Madeira Ricou, Asp RN Fernando Manuel Correia dos Santos, Asp RN Jorge Manuel Conceição Ramos e Asp José António Sequeira Alvarez, nas LFP’s “Procion”, “Bellatrix”, “Aljezur” e “Arcturus”, Asp RN Vitor Correia Guimarães no navio-patrulha “Quanza”, Asp TE RN João de Azevedo Pacheco de Sacadura Botte e Asp TE RN Sidarta Valentino Capelo de Sousa no CDM Guiné, Asp FZ RN Carlos Alberto Pardal Sanina no DFE 22 e Asp FZ RN Eduardo Moreira Vaz Cardoso no DFE 12.




O Comando de Defesa Marítima da Guiné depois de instalado no antigo Edifício das Alfândegas.

Angola:
Asp RN Herculano Santos Marques Ferreira na LFP “Fomalhaut”, Asp RN Carlos Eduardo Couto da Cunha Dias no navio-patrulha “Rovuma”, Asp RN José dos Remédios Dias Gonçalves no navio patrulha “Cunene”, Asp RN Manuel Pedro Faustino da Costa na LDG “Alabarda” /CDMP Lago Niassa (a partir de 10Jan72), Asp FZ RN António Bernardino Apolónio Piteira, Asp FZ RN Manuel Teotónio Rodrigues e Asp FZ RN Vitor Luís da Silva Dores na CF 1, Asp FZ RN António Carvalho Rodrigues do Nascimento e Asp FZ RN Dulcínio de Oliveira Santos no DFE 10 e Asp FZ RN Manuel José da Silva Gomes Lima na CF 3.




A LFP "Fomalhaut" a navegar no rio Zaire.

Cabo Verde:
Asp RN António Manuel da Silva Branco na FF “Comandante João Belo”, Asp RN Fernando de Oliveira Macedo Ferraz na FF “Comandante Sacadura Cabral” e Asp RN Olavo Francisco Valente Rasquinho no CN Cabo Verde e Asp FZ RN Nuno Rodrigo Santos Pereira num Pel. Ind. Fuzileiros.




O navio-patrulha "Zaire", da classe "Cacine", atracado no Funchal por ocasião do Dia da Marinha.

Moçambique:
Asp RN Abel Joaquim Pera Lopes Simões no CDMP Lago Niassa, Asp RN João Manuel Esteves na LFP “Antares”, Asp RN Luís Alexandre Lynce de Faria na LFP “Mercúrio”, Asp FZ RN António Mendes Picão no CN Moçambique, Asp FZ RN António Agostinho Lucas da Silva e Asp FZ RN Domingo de Sousa e Holstein Salgado no DFE 3, Asp FZ RN António Maria Allen Burnay Bello e Asp FZ RN Carlos Alberto Amado Pereira da Silva no DFE 9, Asp FZ RN António José de Miranda Correia, Asp FZ RN José Luís Calheiros Ferreira, Asp FZ RN Manuel Augusto Simões Morgado e Asp FZ RN Roque Gomes dos Santos na CF 9.




A Fragata "Comandante Hermenegildo Capelo".

Continente e Ilhas:
Asp RN António Manuel Neves Martins na FF “Pero Escobar”, Asp RN António Manuel Cortez de Miranda na DSP 1.ª Rep, Asp RN António José Guimarães Barral no NH “Almeida Carvalho”, Asp RN Carlos Augusto Fernandes Lopes na LFP “D. Aleixo, Asp RN José Adriano Aguiar Mamede no Gr n.º 2 EA, Asp FZ RN Adelino Couto Rodrigues da Silva, Asp FZ RN Ângelo José Cachudo Sajara, Asp FZ RN António José Rebelo da Silva Carvalho, Asp FZ RN David Ribeiro de Sousa Geraldes, Asp FZ RN Carlos Alberto Lindo da Silva, Asp FZ RN José Alfredo Oliveira Braga e Asp TE RN Orlando Luís Sousa Sequeira na Escola de Fuzileiros, Asp FZ RN Artur José de Almeida Santos no Gr n.º 2 EA, Asp TE RN Carlos Manuel Rodrigues Lisboa, Asp TE RN João Manuel Cunha da Silva Abrantes na D. S. Educação Física, Asp TE RN Diogo Ivo de Miranda Cabral de Barbosa na DSP 5.ª Rep, Asp TE RN João Fernando Pontes Amaro na Chefia do Serviço de Justiça, Asp RN Joaquim Carlos Pereira Franciosi Costa, Asp RN Jorge Manuel Simões Cristina e Asp TE RN Marinús Pires de Lima Soares no EMA e Asp TE RN Pedro Domingos de Brito Ivo de Carvalho na DSA.




A LDG "Bombarda" atracada na doca da Marinha.

No último trimestre de 1973 o PAIGC proclama unilateralmente a independência da Guiné-Bissau em Madina do Boé (24.9.1973); a Assembleia Geral da ONU reconhece a independência da República da Guiné-Bissau e declara ilegal a presença de militares portugueses no território (2.11.1973).

Os oficiais pertencentes ao 18.º CFORN começaram a ser licenciados no final do ano de 1973.

Fontes:

Anuário da Reserva Naval dos Comandantes Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado; Dicionário de Navios, Edições Culturais da Marinha, 2006; Fotografias cedidas pela Revista da Armada, Arquivo da Marinha e particulares.

mls

Domingo, Novembro 01, 2009

Reserva Naval - Morto em Combate

António Bernardino Apolónio Piteira
(1947-1973)



Foi o único Oficial da Reserva Naval morto em combate no período em que decorreu a guerra nos três teatros em África. Recordado por quantos com ele iniciaram a caminhada na Armada, em 18 de Fevereiro de 1971, António Piteira integrou a Classe de Fuzileiros do 18.º CFORN.

A circunstância de ter sido acontecimento único na História da Reserva Naval, seria motivo suficiente para invocar a memória desse triste facto, mas a personalidade invulgarmente simples e simpática de António Piteira, agigantava-se pela desinteressada camaradagem e amizade manifestadas em permanente alegria de viver, marcando profundamente quem o conheceu ou com ele privou de perto.

Natural da freguesia da Quinta do Jogo, do concelho de Arraiolos, onde nasceu em 11 de Outubro de 1947, era filho de Balbina Rita Apolónio e de Augusto da Silva Piteira.

Deu os primeiros passos, no ensino, nas Escolas da região e por aí se manteve até ingressar na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.
A entrada na Escola Naval interrompeu-lhe a vida académica, iniciando-o numa nova fase a que se entregou com contagiante entusiasmo, marcando camaradas e guindando-se a figura de relevo na Amizade, a mais nobre virtude da vida.

Promovido a Aspirante FZ RN em 13 de Outubro de 1971, frequentou o curso de Fuzileiro e foi destacado para Angola, onde chegou a 18 de Setembro do ano seguinte, com o posto de STEN, assumindo o comando do 3.º Pelotão da Companhia N.º 1 de Fuzileiros.

No dia 2 de Junho de 1973, pelas oito horas da manhã, integrado numa coluna de viaturas do Destacamento do Zambeze, em missão de serviço à Lumbala, foi alvo de uma emboscada inimiga. Dessa emboscada, ocorrida na Picada entre Lumbala e Chilombo, a cerca de dez quilómetros desta última localidade, resultou a morte de António Piteira.



O Destacamento do Zambeze e a picada de Lumbala para o Chilombo



Na passagem do 30º aniversário da sua morte em 2003, a simplicidade das palavras de Adelino Couto Rodrigues da Silva, camarada de curso e também fuzileiro, foi elucidativa:

“Recordo-o com eterna saudade e grande emoção. Afirmo ter sido um privilégio conhecê-lo e usufruir da oportunidade de com ele privar e dele me ter tornado amigo. Tinha grande vontade de viver e o destino pregou-lhe uma partida.
Este mundo louco tem destas coisas.
Até sempre, camarada amigo. Um dia vamos encontrar-nos e retomar as nossas conversas, estupidamente interrompidas.”

António Piteira, ainda hoje mantem entre amigos a camaradas um sentimento de tristeza e perda que perdura depois de decorrido tão longo período, ficando indefectivelmente ligado à História da Reserva Naval e da Marinha como mais uma jovem vida ceifada numa guerra que não olhou a quem arrebatou ao nosso convívio.



Também na “Sala Reserva Naval” da Escola Naval, a memória de António Piteira está nobremente representada e, anualmente, é atribuído um Prémio com o seu nome, ao Cadete que, de entre os seus pares, por votação secreta e universal de todos os alunos daquela Instituição manifestar, ao longo de quatro anos e de forma mais significativa, as virtudes que se reconheciam ao homenageado – Altruísmo, Camaradagem, Generosidade, Solidariedade e Simpatia.

Fontes:
Texto de José Pires de Lima - 4º CEORN e Manuel Lema Santos - 8º CEORN; fotos de arquivo.
mls

Sábado, Outubro 31, 2009

Reserva Naval, 23º CFORN - II Parte

23º CFORN - Curso de Formação de Oficiais da Reserva Naval

II Parte




No ano de 1973 foram abatidos ao efectivo dos navios da Armada, a FF “Vasco da Gama” a FC “Cacheu” e o DM “Pico”, mas foram aumentadas ao mesmo efectivo novas unidades como os navios-patrulhas “Limpopo”, “Save” e a LFP “Sabre”, entre outros, pelo que as perspectivas dos oficiais do 23º CFORN virem a ser designados para prestar serviço no Ultramar eram evidentes.


A Corveta "Cacheu".

Com o 25 de Abril de 1974, quase uma vintena de oficiais daquele curso foi designada para serviço no Ultramar e, entre eles, os últimos comandantes das LFP “Rigel” - STEN RN António José de Oliveira Brás, LFP “Espiga” – STEN RN José Manuel Nogueira Soares, LFP “Pollux” – STEN RN Emídio Rafael Moreira Veloso e LFP “Altair” - STEN RN António Borges Santos Silva.


A Lancha de Fiscalização Pequena "Pollux".

Após o movimento do 25 de Abril, designadamente em Junho e Julho, ainda se verificou a deslocação de diversos oficiais Reserva Naval

Em Julho, pela primeira vez no historial da Reserva Naval o STEN RN João António Martins Ribeiro de Carvalho foi designado para prestar serviço no Comando da Defesa Marítima de Timor.

Para Moçambique foram desempenhar missões os STEN AN RN Eugénio Manuel Ribeiro Azevedo – CDM Portos do Lago Niassa, Jorge Manuel Vieira Jordão – NRP “S. Brás”, Manuel Brandão de Vasconcelos Alves – Comando Naval de Moçambique e para o Comando Naval de Cabo Verde o STEN AN RN Filipe José Seita Duarte.


O Navio de Apoio Logístico "S. Brás".

Na área de Lisboa as LFP’s “D. Aleixo”, “D. Jeremias”, “Açor” e “Albatroz" foram igualmente comandadas por oficiais do 23º CFORN, respectivamente os STEN RN Eurico Teixeira Ladeira, José Carlos Baptista dos Santos, Edmundo José Simões Gomes de Azevedo e José Jorge Geirinhas Mascarenhas. Este último destacou mais tarde para o NRP “Geba”.


A Lancha de Fiscalização Pequena "D. Aleixo".

Foram igualmente destacados para unidades navais os Asp RN António Augusto de Sousa Miranda – NRP “Corvina”, Carlos António da Silva Mendes – NRP “Santa Cruz”, Eugénio Mendes Ferreira, NRP “Azevia”, Francisco Ramos da Silva Gomes – NRP “Limpopo”.

Para o NRP “S.Roque”, NRP “Comandante Roberto Ivens” , NRP “Lagoa” e NRP “Boavista” foram ainda destacados os Asp EMQ RN António Joaquim Manso, José Ricardo Crespo da Costa Simões, Rui Manuel Leitão Sequeira Lopes e Serge Ruy Sinnes de Barbosa Araújo, respectivamente.


A fragata "Comandante João Belo"

Da classe de Fuzileiros desempenharam missões em Angola os STEN FZ RN Fernando José Gomes dos Santos e Mário Gil Moreira Costa na CF 3, Henrique Maria Ulrich Anjos na CF 5 e João Manuel Pimentel Cortez Pinto na CF 9; em Moçambique os STEN FZ RN Benjamim de Jesus Correia e José Carlos da Mota Rodrigues no DFE 10 e José Joaquim Pereira Simões no DFE 11.

Os restantes ficaram a desempenhar missões em Unidades e Serviços no continente, em terra, de acordo com as respectivas especializações.

A 27 de Março de 1975, todos os oficiais do 23º CFORN foram promovidos a Sub-tenente RN, incluindo os que estavam na situação de graduados. No final daquele ano a maioria deles foi licenciada.

Fontes:

Anuário da Reserva Naval dos Comandantes Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado; Fotografias da Revista da Armada/Arquivo da Marinha.

mls

Segunda-feira, Outubro 26, 2009

Galeria Reserva Naval (2)

Henrique Maria Ulrich Anjos
(1952-1993)





Dele disse a jornalista Inês Dentinho: “Um aristocrata que escolheu ser pescador, um campeão de vela que quis ser bombeiro, um homem do mar que uniu os grandes e os pequenos da baía de Cascais”.

Mas foi mais. Campeão de vela, olímpico nos Jogos de Munique de 1972, nos de Los Angeles de 1984 e nos da Korea do Sul em 1988, foi também oficial Fuzileiro da Reserva Naval, oriundo do 23.º CFORN, incorporado na Armada em 30 de Agosto de 1973. Prestou serviço em 1975, em Angola, integrado na Companhia de Fuzileiros nº5.

Nos seus tempos de menino frequentou a Escola Técnica dos Salesianos, do Estoril, e o Colégio de João de Deus, no Monte Estoril, neste último de 1963 a 1967, entre o 2.º e o 5.º ano do liceu.

A sua vida é uma história de entrega aos outros, de desapego ao material, de exemplo contagiante pelo entusiasmo que a tudo dedicava, sem sacrifício aparente, apenas pelo gosto de viver para a natureza.

A sua morte prematura antes de completar 40 anos de idade, deixou vazio um lugar único que era só dele.

Quatro anos depois desse dia fatal, o texto que Inês Dentinho escreveu na data, merece ser recordado. Nele se revê a figura de Henrique Anjos na sua dimensão maior. Com a devida vénia, aqui o recordamos em frases elucidativas:

“Era um homem do mar. Calado como a noite. Generoso como as marés. Forte como um porto de abrigo. Fez da sua vida uma história de água salgada. Na vela, nos fuzileiros e na pesca. Tinha com o Mar uma conversa íntima. De respeito e à-vontade. A mesma que o fez perder. No dia em que o respeito não vingou.
Henrique Anjos morreu na baía de Cascais onde corria os seus dias. Entre a Lota e o Clube Naval. Reunia em si os dois mundos da vila antiga. Era aristocrata e pescador. Desportista e profissional. Civilizado porque simples.
Nunca deixou de ser quem era, por passar a ser quem foi.
A “alta” achava-o excêntrico. Demorou a entender aquele viver solitário, de um dos seus entre os homens do mar. Foi também com o tempo, que os pescadores aprenderam a tê-lo como igual. Ou quase. Porque quando a crise apertava e a discussão fazia divisões, lá acorriam ao Mestre Henrique Anjos na certeza de uma solução para o enguiço.
Podiam contar com ele. Tão silencioso como popular, ele ouvia os aflitos, estudava os assuntos e tratava de achar a exacta resposta para a “tempestade”. Assim, lançou os Estatutos para a Associação de Armadores e Pescadores de Cascais, pediu regras justas para a Lota, quis de volta a Casa dos Pescadores, requereu licença de arrasto para Cascais e pensou a futura Marina a contento da pesca e do recreio.
No outro extremo da baía, com igual empenho, animava as escolas de vela. Lançou sementes que hoje dão fruto.
Em nome do Mestre, a Câmara criou o Dia do Pescador de Cascais, comemorado anualmente a 8 de Março. E colocou, no Largo da Lota, a nova placa de Henrique Maria Ulrich Anjos. Um homem que sozinho traçou o caminho. Hoje percorrido por todos.
Nascido em Lisboa a 4 de Junho de 1952, com casa na Linha, era junto dos ganhões alentejanos, durante as férias, que o rapaz se sentia melhor. Saía de madrugada para a monda nas herdades das tias de Estremoz. Almoçava na cozinha do rancho e recebia os seus tostões ao Sábado, como mais um trabalhador rural. Tomava-se a sério e ganhava gosto pela vida daquela gente. De tal maneira, que quando entrou para a primária, não queria aprender a ler – “quero ser ganhão. E os ganhões não sabem ler”.
A sábia professora arranjou-lhe então uma gazeta agrícola que Henrique devorou em letras. Ali se descreviam culturas e calendários rurais. Aplicou os conhecimentos no fim do jardim grande da casa de Santo Amaro. Plantava as suas hortas, colhendo frescos para a casa.
Mas seria o mar que o chamaria com apego. Filho e neto de velejadores consagrados, cedo se habituou a acompanhar o pai no barco, aos fins-de-semana. Lá estava também o velho arrais Augusto, com tempo e encanto para ensinar o seu pequeno marinheiro.
Velejador desde os cinco anos de idade, aos oito entra para a primeira escola de vela, em Algés. Foi campeão nacional júnior, em 1971 na classe Finn. No ano seguinte conquista o 6.º lugar nas Olimpíadas de Munique, na classe Star.



Vivia agora no Estoril e passava os dias na Baía de Cascais. “Tinha a mania da pesca. Nas pedras havia mais peixe e era para lá que ele ia desde os 14 ou 15 anos. Mexia-se dentro de um barco como se estivesse em terra” diz dele o seu amigo e também oficial fuzileiro da Reserva Naval, José Maria Bustorff Silva, do 23º CFORN.
Igual a si próprio oferecera-se, entretanto, como voluntário para os bombeiros, ganhando méritos e louvores por actos de bravura. Recebia as honras sem publicidade.
Tal era o empenho do bombeiro que no dia da admissão à faculdade preferiu responder à sirene em vez de fazer exame. Apagou esse fogo e entrou, no ano seguinte.
Vai trabalhar para a Lisnave, onde um tio, na Administração, lhe pergunta: “Queres aprender ou queres ganhar dinheiro?”. Quis aprender a ser soldador mecânico. E foi. Mas tinha 19 anos e uma vontade certeira de ligar a sua vida ao mar. Em 1973 oferece-se como voluntário para os fuzileiros navais. Vai para Angola.
De volta a Lisboa não se demora na vida militar. Passa a trabalhar em limpezas químicas das tubagens dos navios.
Apesar da violência dos empregos, Henrique Anjos nunca larga a vela. Esgota as energias do fim-de-semana no clube Naval de Cascais. Será campeão nacional, na classe Star, desde 1979 a 1984, repetindo a proeza em 1988.
Casara durante o serviço militar, mas não procura casa. Igual a si próprio, queria viver num barco. Em 1975 consegue comprar uma traineira devoluta. Mas acaba por manter os pé em terra. Vive em Sintra, contrariado pela serra que o separa da baía. Tem quatro filhos, todos eles amigos do vento e do mar.
A partir de 1978 dedica-se à pesca. Recupera o barco. Faz redes na perfeição. Tem engenho. Apura o sentido prático de quem vive da natureza. Aprende depressa. Conhece o mar como qualquer velho pescador profissional. Todos os dias saía para o mar às três da tarde e voltava na manhã seguinte, por volta das dez. Despachava o peixe na lota e passava pelo Clube Naval, por vezes ainda equipado. Na praia batia-se pelo espírito de corpo dos pescadores de Cascais. Corria o país, de Peniche a Olhão, na demanda da melhor estrutura para uma associação dos “seus” homens.
Fazia quilómetros ao fim-de-semana, à procura de estatutos ideais para o caso da sua terra. O turismo e a natureza individualista da gente do mar “proibiam” o espírito de corpo dos pescadores.
Henrique batia-se sozinho pela mudança da corrente. As injustas regras da lota, beneficiando as especulações de intermediários, assim o impunha. Queria as licenças de arrasto de vara e arrasto de portas, fixas em Cascais. Viria a garanti-las depois de morrer.
Entrava nos cursos de formação profissional só para mostrar aos outros pescadores que também deveriam estudar. E punha o seu barco, gratuitamente, à disposição para o ensino dos novos profissionais.
Tudo fazia sem alarde. Indiferente às resistências. Com uma estranha confiança no futuro que não conheceu.
Morreu com 40 anos, tentando salvar os barcos do Clube Naval, num dia de mar picado. Ninguém lhe pedira ajuda. Mas era preciso evitar o estrago pior.
Que não evitou".

A trágica morte no mar, à vista do “seu” Clube Naval, no meio das embarcações da Baía dos “seus” pescadores, depois de anos de luta pela segurança da profissão, foi castigo para quem o devia ter ajudado e com ele deveria ter lutado. Para Henrique Anjos, a glória do seu nome perpetuado, sem as honrarias que sempre rejeitou em vida, mas cuja memória, aqui e ali, vai continuar a ser lembrada.
Morreu o Homem. Fica a Memória. Salvou-se a obra.

Fontes:
Texto de José Pires de Lima, do 4º CEORN.

mls

Domingo, Outubro 25, 2009

Galeria Reserva Naval - Esclarecimento






A "Galeria Reserva Naval" foi temática já iniciada anteriormente e a que regressamos agora utilizando outra metodologia, fundindo neste título os que anteriormente figuravam nas páginas “In Memoriam” e “Galeria” do site que corria ligado a este blogue e que entendemos desactivar.

Representa simultaneamente um acto de justiça e consequente destaque de figuras que, pela sua personalidade e de forma relevante, tenham contribuído para a valorização e elevação da Reserva Naval da Marinha, na preservação da sua Memória e História.

Desde a data da sua criação e até hoje, prosseguiremos este projecto sem qualquer preocupação de ordenamento cronológico ou critério de valorimetria hierárquica na publicação, quer tenham pertencido ou não à Reserva Naval e sem restrições quanto a caracterização civil, militar ou de qualquer outra ordem.

Quer tenham prematuramente concluído a rota da vida quer sejam ainda presenças dos nossos convívios, iremos lembrando personalidades que marcaram, directa ou indirectamente, a vida da Reserva Naval no seu todo ou parcialmente.

Certamente com a preocupação única de manter viva a sua lembrança, quer num simbolismo simples de retribuição da consideração e amizade que sempre nos dedicaram quer ainda de gratidão pelas referências ou exemplos que para nós representaram.

Nesse sentido, ao simples correr da pena e em rascunhos simples, sem a pretensão de exaustivos, iremos publicando páginas que anteriormente eram mantidas em paralelo com o blogue e outras que nos ocorrer serem incluídas.

Abrindo caminho afinal a outra oportunidade de, tão simplesmente, relembrar!

mls

Quinta-feira, Outubro 22, 2009

Reserva Naval, 23º CFORN - I Parte

23º CFORN - Curso de Formação de Oficiais da Reserva Naval

Com o 23º CFORN, foram alistados na Escola Naval, em 30 de Agosto de 1973, 81 cadetes candidatos a oficiais daquela Classe.

Foram incorporados 27 cadetes da classe de Marinha, 6 da classe de Engenheiros Maquinistas Navais, 24 da classe de Administração Naval e 24 da classe de Fuzileiros.



Terminado o curso, foram promovidos a Aspirantes a oficial em 27 de Março de 1974, tendo em seguida sido destacados para as unidades e serviços para onde foram nomeados, no desempenho das missões que lhes foram atribuídas.

Na foto abaixo, legendada, figura a classe de Fuzileiros do 23º CFORN em que os cadetes fardados com o uniforme 3B foram aprovados como fuzileiros navais (FZ) e os uniformizados de camuflado como fuzileiros especiais (FZE).




Da esquerda para a direita, fila de trás, em cima:
João Almeida Encima, Fernandes*, João Cortez Pinto, Fernando Gomes dos Santos, Mário Moreira Costa, António Gomes Miguel, Joaquim Lourenço Gonçalves, Benjamim de Jesus Correia, António Areias de Carvalho e Elísio Amaral Neves.

3ª fila:
António Ferreira Leite, Henrique Barros Geraldes, José da Conceição Gois e Armindo Gonçalves Costa.

2ª fila:
Henrique Ulrich Anjos, José Bustorff Silva, José Pereira Simões, 1TEN EMQ David e Silva (QP’s), 1TEN EMQ Pedereira Carneiro (QP’s), 1TEN M Vargas de Matos (QP’s), José Mota Rodrigues, José Lopes Pires (sentados) e José Pires Marinho (de pé).

1ª Fila, à frente:
Jorge Lopes Gonçalves, João Nunes Peres, Armando Canto e Silva, Manuel Vaz Martins e José Pereira de Sousa (de pernas cruzadas).


* Este cadete Fernandes, por decisão final do Conselho Escolar foi reprovado, sendo alistado posteriormente como grumete.


Fontes:
Anuário da Reserva Naval dos Comandantes Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado; Apontamentos e fotogradfia cedidos pelo CMG José da Conceição Gois, do 23º CFORN, que mais tarde ingressou no Quadro Permanente.

mls

Segunda-feira, Outubro 19, 2009

Angola 1968/69 - "Moisés Salomão"


“Moisés Salomão” - Angola 1968/69

Desde criança, não conhecia outra vida e outros mundos para além do quimbo, da lavra onde plantava e colhia a mandioca e da pesca no rio, cujo caudal sereno, prateado e calmo, na estação seca, lhe permitia andar dentro dele, com água pela cintura, deixando flutuar o cesto de canas que, ao afundá-lo, lhe mostrava, quantas vezes e com quanta generosidade, um saltitante peixe estrebuchando desesperadamente numa tentativa de fuga sem êxito.

O final anunciado, bem como o de muitos outros companheiros do mesmo mundo aquático, era, depois de abertos e retiradas as tripas, a secagem em rudimentares estruturas de paus e ramos de árvores, preparando, assim, as “despensas” da população para períodos de menos abastança.

A estação das chuvas fazia o rio perder as margens e as suas águas castanhas, barrentas espraiavam-se por quilómetros invadindo a chana, cobrindo os campos de mandioca, caminhos e picadas, isolando povoações, deixando-as resignadas e esperando serenamente que o retorno ao seu leito normal os pudesse levar de novo às tarefas agrícolas e piscatórias.

Cresceu, fez-se homem e, como todos os seus companheiros e pelos costumes do sobado, casou cedo, com a filha do soba. O quimbo ficava na região de Serpa Pinto onde se lembrava de ter ido, uma vez a pé, pela picada e de ter ficado admirado por ter visto, pela primeira vez, casas sem ser de adobe, capim e troncos de árvores.


Chilombo -1968,
à esquerda: O 1º aquartelamento do DFE2 em antigas casas de civis, abandonadas aquando do início da guerrilha em Angola; à direita: 1º içar da Bandeira Nacional no aquartelamento do Chilombo.

Brancos, já os tinha visto, pois, a tropa, de vez em quando, passava pelas suas terras e, também, “uns senhores que não eram tropa mas andavam armados como os “tropa” e faziam perguntas, entravam nas cubatas à procura de armas ou “combatentes” e, algumas vezes, davam porrada para saberem coisas…”

Uma vida sem horizontes, de pobreza e miséria, dividida entre os “tropa” brancos e os “combatentes” pretos, foi-lhe alimentando o desejo de mudar, de procurar uma nova vida. Outros, já tinham partido e já tinham voltado. Haviam contado que, para Sul, havia outras terras, outras gentes, outros trabalhos que não a mandioca e a pesca e onde se podia ganhar muito dinheiro nas minas de ouro.

Encorajado e decidido, rumou a Sul, a pé, por caminhos, picadas, mata, atravessou o sudoeste africano (Namíbia), foi perguntando onde ficavam as minas de ouro e ao fim de dois meses chegou à África do Sul onde não teve dificuldade em ser recrutado por uns senhores brancos. Por lá esteve dois longos e sofridos anos, tendo juntado os “randes” que julgava suficientes para iniciar uma nova vida.

E regressou, pelos mesmos caminhos até à fronteira com Angola. Aqui chegado, depois de atravessar o Cunene, é surpreendido por um grupo de “combatentes” do MPLA que o despojam do que havia ganho e amealhado nas minas de ouro e o conduzem a uma base de guerrilheiros para passar a integrar aquele Movimento.

Estes acontecimentos e os que lhe seguiram, iriam mudar completamente a vida que projectara! Passados meses em treinos de movimentações na mata, uso de armas de guerra e acções de guerrilha, rapidamente lhe reconheceram qualidades e aptidões para além das exigidas aos “simples” combatentes.
Os dois anos de África do Sul, nas minas de ouro, haviam-lhe aberto novos horizontes, novos conhecimentos e saberes, outras competências e uma dimensão mais alargada do mundo, da sociedade e do homem.

Os chefes não tiveram dúvidas em o mandar “estagiar” para a União Soviética, primeiro, e para a Argélia, depois. Por lá andou mais quatro anos! Aprendeu quase tudo sobre guerrilha, guerra psicológica, controlo de populações, comando e condução de homens em situação de combate na mata. Regressou a Angola “doutorado” na matéria!

As saudades da família levaram-no a visitá-la no quimbo, onde a sua ausência/desaparecimento era, de há muito, conhecida. E não só pela família e população. Os senhores que não eram “tropa” mas andavam armados como eles e que apareciam, de vez em quando, lá pelo quimbo, também já sabiam da sua longa e estranha ausência.

A sua notada chegada e curta estadia, antes de se apresentar aos chefes do MPLA, rapidamente chegou ao conhecimento da PIDE, em Serpa Pinto que, num ápice, o foi apanhar com “a boca na botija”, na companhia da mulher.

Os métodos e técnicas de interrogatório, onde a violência física era dominante, deixaram-lhe marcas visíveis para toda a vida! Conhecidas as sua actividades de ligação ao MPLA e o seu percurso desde que regressara a Angola, vindo das minas de ouro da África do Sul, foi entregue ao Comando da Zona Militar Leste que, juntamente com o Comando das Forças de Marinha de Leste (Comformarleste, Comte. Sousa Campos) logo preparou uma operação, tendo como base as informações colhidas nos inúmeros interrogatórios.

É, assim, que é recebida no Destacamento nº 2 de Fuzileiros Especiais(DFE2), no Chilombo, uma mensagem informando da chegada de um guia para acompanhar o Destacamento numa próxima operação. Dias depois, vindo numa coluna militar do Exército, chega ao Chilombo o esperado guia. Conduzido ao comando do Destacamento, na altura, o Imediato Dias Miguel, por ausência do Comandante Medeiros Ferreira, no Luso, logo são feitas as apresentações:

Pergunta: “Como te chamas?”.

Resposta: “Moisés Salomão”.

Era um homem baixo e robusto, feições correctas, ausência de cabelo, com sinais evidentes de cicatrizes na cabeça, fruto de espancamento que lhe destruiu parte do crânio, aparentando à volta de 35 anos. Envergava um camuflado que ajustava ao seu corpo, arregaçando as mangas e dobrando as calças em baixo, pois o tamanho seria 2 números acima do seu!

De “posse” do homem que me iria conduzir e orientar durante a operação, com ele travei diversas conversas ao longo do dia, tentando conhecer esta personagem que me iria marcar profundamente para o resto da minha vida, a tal ponto que, passados 37 anos, ainda o recordo e, por isso, aqui quero deixar este meu testemunho que não é mais do que uma sentida homenagem a um homem, um angolano, que de forma tão sentida e perene enriqueceu as minhas memórias de um período inesquecível da minha passagem pelos Fuzileiros e pela Marinha de Guerra Portuguesa.


Foto da esquerda e da esq. para a dir.: 2ºTEN RN Taco Calado-11º CFORN, 2º TEN RN Carreiro e Silva - 9º CFORN, 2º TEN RN MN Edward Limbert -11º CFORN, Capelão da Armada Azevedo, 1º TEN Medeiros Ferreira e 2º TEN Dias Miguel dos QP's e 2º TEN RN Fernando Freitas - 11º CFORN.
Foto da direita: O Grupo de Combate que realizou a operação "Campino" abaixo descrita.

A operação “Campino” integrada na “Victória II” teve início a 10 de Novembro de 1968 e tinha como objectivo montar uma emboscada junto a Cassupa (fronteira com a Zâmbia) para interceptar guerrilheiros do MPLA fugidos de uma outra operação feita pelo Exército e que teriam consigo um missionário raptado no Lumege.

A operação saldou-se por “um êxito total e resultados apreciáveis” (terminologia usual da época), tendo merecido as seguintes mensagens de felicitações:

Almirante Comandante Naval (Contra-Almirante Eugénio Ferreira de Almeida) – “COMARANGOLA felicita vivamente esse comando resultados obtidos acção Campino fazendo votos novos sucessos para prestígio vossa unidade e contribuição aniquilação do IN.”;
Comandante Sousa Campos (COMFORMARLESTE) – “Meu nome pessoal, quer como Comformarleste, desejo transmitir oficial, sargentos e praças maiores felicitações votos novos êxitos cada vez mais expressivos.”;
Comandante do DFE2 (1º TEN Medeiros Ferreira) – “Particularmente grato como comandante desse enviar valorosas felicitações êxito obtido transmitindo oficial, sargentos e praças tomaram parte acção.”


2º TEN RN Fernando Freitas do 11º CFORN, comandante do Grupo de Combate, com o Sargento Piedade, o Cabo "Puskas" e o material apreendido ao inimigo.

Para além dos acontecimentos atrás, muito resumidamente, descritos e que, naturalmente, constituem hoje parte de um património pessoal de um tempo riquíssimo que marcou e transformou a minha personalidade e o modo de estar na vida, ficou-me para sempre a recordação de um contacto humano extremamente enriquecedor com essa figura singular de seu nome Moisés Salomão.

Ainda hoje, não posso deixar de recordar as suas palavras serenas, tristes e sofridas, quando, após o fim da operação e perante os resultados obtidos (diga-se baixas causadas ao IN), se me lamentava: “ Sinhor Tinente, tudo isto não faz sentido! Andamos a matar-nos uns aos outros, quando somos todos irmãos!”.

O regresso foi festejado e todos fomos saudados pelos companheiros que nos aguardavam no Chilombo. Merecemos louvores, tiramos fotografias. Lamentavelmente, o Moisés Salomão não ficou em nenhuma!

Partiu como chegou, humilde, respeitador, muito educado.

Para nós tinha cumprido o seu dever. Será que nós o cumprimos para com ele? Não consegui evitar o deixar escapar uma lágrima de despedida. Não fiquei com uma fotografia dele e que tanto desejaria tê-la.

Deixei-lhe como homenagem e reconhecimento aquela lágrima que ele compreendeu e retribuiu.

Até sempre, meu amigo, estejas onde estiveres.

Fernando Freitas
2º TEN FZE - 11º CFORN

mls

Domingo, Outubro 18, 2009

Guiné, 1971/1973 - Marinha e a CCav 3404


Guiné, 1971/1973 - CCav 3404, 36 anos depois do regresso




Guarda de honra por pelotão e terno de clarins do RAAC de Queluz.



Um pouco por todos os municípios do país, em praças ou largos criteriosamente escolhidos, estão espalhados símbolos de um passado próximo que marcaram pelo sacrifício e sofrimento uma geração inteira de mães, mulheres e familiares, privados do convívio de filhos, pais, maridos, irmãos ou simples amigos.

São sempre carregadas de significado e emoção as cerimónias de evocação e homenagem àqueles que, numa guerra que se prolongou por uma dúzia de anos, caíram, ficaram diminuídos ou combateram ao serviço de Portugal, na Guiné, em Angola ou Moçambique.

A efeméride de Sábado em Cascais, levada a cabo por elementos da antiga CCav 3404, junto ao quartel da Cidadela, no antigo CIAAC já desactivado, foi mais um exemplo dessa determinação, reunindo acima de uma centena de pessoas entre elementos da referida Companhia, Familiares, Amigos ou como meros transeuntes.

A CCav 3404, comandada pelo Cap Cav Luis Fernando Andrade de Moura juntamente com as CCav 3405/3406/CCS fez parte do BCav 3854 que embarcou para a Guiné em 4 de Julho de 1971 no TT “Angra do Heroísmo”, tendo atracado em Bissau em 9 de Julho desse mês, depois de ter efectuado uma escala no Funchal para desembarcar um militar acometido de apendicite aguda.



O navio TT "Angra do Heroísmo".

Foi capitão de bandeira do navio o CAPTEN Engrácio Lopes Cavalheiro personalidade da Marinha já conhecida dos cursos da Reserva Naval por ter sido, anteriormente, um dos instrutores do 8º CEORN na Escola Naval.

Como nota complementar curiosa, no mesmo navio e também para a Guiné, seguiu a CCav 3420 comandada pelo Cap Cav Fernando José Salgueiro Maia.

Nos dias 10, 11 e 13 seguintes, a LDG “Alfange”, comandada pelo 1TEN João Manuel Lopes Pires Neves e tendo como oficial imediato o 2TEN RN Duarte José de Melo Borges Coutinho, do 16º CFORN, transportou para o Xime, na margem esquerda no rio Geba e um pouco acima da confluência com o Corubal, pessoal e material daquele batalhão.



O rio Geba, de Bissau até ao Xime, na margem esquerda, a montante da foz do rio Corubal.

A CCav 3405, mais tarde, efectuou o percurso por Bambadinca, Bafatá e Nova Lamego, inflectindo para sudeste para Cabuca, junto ao rio Corubal e à fronteira leste, onde permaneceu durante dois anos desempenhando as diversas missões que lhe foram atribuídas.



A sudeste de Nova Lamego, a povoação de Cabuca.



No dia 12 o TT “Angra do Heroísmo” regressou a Lisboa, trazendo de volta, por ter terminado a comissão, o Destacamento de Fuzileiros Especiais nº 3, comandado pelo 1TEN José Manuel Velho da Silva Dias que desempenhou as funções de comandante das forças embarcadas.

Eram seus oficiais o 2TEN FZ João Joaquim Teles Ribeiro (oficial imediato), o 2TEN RN José Pedro Pimentel Mesquita e Carmo, do 14º CFORN, o 2TEN FZ RN Miguel Duarte Ferreira Castro Soares, do 14º CFORN, e ainda o 2TEN FZ RN Francisco Ruy Pato de Góis Oliveira, do 15º CFORN. O navio atracou ao cais da Rocha Conde d’ Óbidos, no dia 17.

Mais de dois anos depois, em 11 de Setembro de 1973 a LDG “Montante” comandada pelo 1TEN Pedro Manuel Couceiro de Sousa Santos e tendo como oficial imediato o 2TEN RN José António Barbot Veiga de Faria, do 21º CFORN, trouxe de volta, do Xime para Bissau, a mesma unidade - a CCav 3404.

A 4 de Outubro seguinte, aquela unidade do Exército juntamente com outras, embarcaram de regresso a Lisboa no TT “Niassa” que, já tendo sido escoltado na ida pela corveta “Honório Barreto” foi-o, no regresso e até á bóia de espera do Caió, pelo navio-patrulha “Quanza”, estacionado na Guiné. Integrava a guarnição desta unidade naval o 2TEN RN Vitor Correia Guimarães, do 18º CFORN.



O navio TT "Niassa".

Foi capitão de bandeira o CFR Joaquim Armando Cabeçadas da Silva Reis e a viagem decorreu sem incidentes com o apoio longínquo da fragata “Comandante João Belo”, estacionada em Cabo Verde, fazendo parte da sua guarnição o STEN RN Cândido José Dominguez dos Santos, do 21º CFORN. O navio foi ainda sobrevoado por um avião P2V5 Neptune daquela zona aérea.

A viagem de retorno completou-se sem incidentes e, em 11 de Outubro, depois de ter ficado a pairar em S. José de Ribamar por ter encontrado intenso nevoeiro na entrada da barra do rio Tejo, o navio atracou mais tarde ao cais de Alcântara.

A reconstrução simplificada deste pequeno “puzzle” de memória histórica, ilustra bem o notável trabalho logístico levado a cabo pela Marinha dos anos '60 no transporte e apoio às unidades militares que, como aquelas, ali estiveram estacionadas.

Simultaneamente, pode fazer-se uma pálida ideia do que representará a reconstituição histórica detalhada do gigantesco rendilhado da memória histórica dos diferentes teatros de guerra, articulando os acontecimentos havidos pelos três ramos das Forças Armadas durante uma dúzia de anos de conflito.



Os modelos expostos por Mário Cavalleri, militar da Companhia e organizador do evento.

36 anos depois, em ambiente de agradável e são convívio, reviveram-se acontecimentos passados em que também estiveram representados alguns modelos das unidades e armamento então utilizados pelos três Ramos das Forças Armadas em serviço na Guiné, sendo visíveis um modelo da LFP "Bellatrix", outro da LDM 304, e ainda um avião Dornier DO 27.

Foi uma honra ter estado presente!

mls

Reserva Naval - Açores 1960

1960 - Campeonato de Tiro

Fotografia da equipa representativa do Comando Naval, no campeonato de tiro do Comando Militar do Arquipélago dos Açores, que alcançou o terceiro e quarto lugares na classificação geral de tiro de pistola e espingarda de guerra.


Acompanhados do 1.º tenente José Agostinho Teles de Sousa Mendes, do Comando Naval, a equipa era constituída pelo Aspirante RN Manuel António de Paiva Pinto, do navio Patrulha “S. Vicente”, pelo 2.º sargento artífice electricista Amândio Garcia Zambujo, do comando naval dos Açores, pelo cabo radarista António Pinto Cardoso, do comando naval dos Açores e pelo marinheiro de manobra Joaquim Lucas, do Patrulha “S. Vicente”.

O Aspirante RN Manuel Paiva Pinto incorporou o 1.º CEORN em 1958 e esta classificação mereceu do Chefe do Estado-Maior da Armada a concessão de uma Menção de Apreço com direito a 5 dias de licença especial, conforme publicado na Ordem do Dia à Armada, n.º 27 de 4 de Fevereiro de 1960.

Foi a primeira Menção de Apreço da História da Reserva Naval.

mls

Sábado, Outubro 17, 2009

Reserva Naval - Primeira Condecoração

Primeira Condecoração de Um Oficial da Reserva Naval

Eurico Jorge Marques Antunes, pertencente ao 2.º CEORN, foi o 1.º oficial da Reserva Naval a ser condecorado pelo Governo Português, conforme Portaria de Janeiro de 1962.



Foi condecorado com a Medalha de Prata de Coragem, Abnegação e Humanidade do Instituto de Socorros a Náufragos, “por ter efectuado a tentativa de salvamento de um operário do Arsenal do Alfeite quando este caiu à água entre aponte do Arsenal e um navio patrulha, para o que se atirou à água entre a ponte e o navio, mergulhando à profundidade de seis metros e procurando no fundo do lodo, apenas pelo tacto, dada a turvação das águas, o corpo do referido operário, acabando por o encontrar e, sem qualquer auxílio, trazê-lo à superfície”

Este louvor, confirmado pelo Almirante Chefe do Estado-Maior da Armada e concedido pelo Comandante do N.R.P. “Pico”, CTEN Carlos da Fontoura Garcez de Lencastre foi publicado na ODA n.º 143 de 25 de Julho de 1961 e terminava assim:

Usando pois, das atribuições que me são conferidas pelo artigo 106.º do Regulamento de Disciplina Militar, louvo o Subtenente da Reserva Naval Eurico Jorge Marques Antunes pela elevada coragem e abnegação que demonstrou possuir quando, em condições muito perigosas e difíceis, mergulhou à profundidade de seis metros em águas turvas, fundos de lodo e no apertado espaço compreendido entre a ponte cais cheia de cortantes incrustações e o navio, junto dos robaletes, arriscando-se a ficar preso num deles, e sem auxílio conseguiu trazer à superfície o corpo do operário que jazia inanimado no fundo, dando assim provas de elevado heroísmo, decisão e iniciativa”

mls